Economia 2040Economia real, capital e território
Artigo de opinião

Um território não ganha autonomia quando depende de um único salvador

Lucas Atanazio · 27 de outubro de 2026
OPORTUNIDADE → CAPACIDADE → CONTINUIDADE
Esquema conceptual da análise; não representa dados medidos.

Quando se discute o futuro de um território, é fácil concentrar a conversa numa grande chegada. Uma empresa, um investimento, um projeto capaz de mudar o ambiente. Não desprezo nenhuma oportunidade séria. Mas faço uma pergunta antes de entrar na celebração: o que fica nas pessoas e nas organizações locais se essa oportunidade mudar de direção?

Um território pode receber atividade e continuar sem capacidade para decidir o seu caminho. Pode ter emprego concentrado numa organização, fornecedores dependentes de uma encomenda e conhecimento guardado fora de quem executa. Durante algum tempo, tudo parece funcionar. A fragilidade só se torna visível quando o centro de decisão reduz a presença ou passa a exigir condições diferentes.

Defendo uma ideia de autonomia territorial que não se confunde com isolamento. Um lugar autónomo estabelece relações, recebe investimento e coopera com outros. O que procura evitar é que a continuidade da sua vida económica dependa de uma única vontade. Não precisa de fazer tudo sozinho. Precisa de conservar condições para escolher, aprender e reorganizar-se.

A chegada e a capacidade de acolher

Imaginemos um concelho, num exemplo hipotético, onde uma nova atividade cria procura por alojamento, alimentação, manutenção e transporte. A oportunidade pode ser importante. Mas a existência de procura não garante que os negócios locais a consigam servir. Podem faltar horários compatíveis, capacidade de coordenação, informação sobre as necessidades ou condições para repartir trabalho entre empresas pequenas.

Se a resposta for apenas esperar que cada empresário se organize sozinho, parte da oportunidade pode passar ao lado. Se a resposta for criar uma estrutura que resolve tudo por eles, pode nascer outra dependência. Entre o abandono e a tutela, existe um trabalho de preparação: tornar as necessidades compreensíveis, aproximar competências e facilitar combinações que os participantes conseguem manter.

Uma iniciativa de empreendedorismo local deve ser examinada por essa capacidade. Ajuda os empresários a compreender uma procura concreta? Permite comparar alternativas? Melhora a maneira de negociar e cumprir? Deixa instrumentos que continuam a ser usados depois da primeira ação? Estas perguntas dizem mais sobre desenvolvimento do que a quantidade de sessões ou o entusiasmo de uma inauguração.

Não apresento esse caminho como uma receita já implantada num município específico. É uma posição sobre como avaliar projetos territoriais. Uma proposta merece ser julgada pelo mecanismo que oferece e pelas condições em que pode funcionar, sem transformar um desenho interno num resultado público que ainda não aconteceu.

O conhecimento que não fica

Uma intervenção pode resolver uma dificuldade e, ainda assim, deixar o território dependente da próxima intervenção. Acontece quando apenas o especialista externo compreende o diagnóstico, conserva os contactos e sabe repetir o procedimento. Os participantes recebem a resposta, mas não conseguem reconstruir o caminho que a tornou possível.

Não é razoável esperar que toda a especialização se torne local. Há trabalhos que pedem recursos partilhados e competências raras. A questão é outra: que parte da capacidade de formular o problema, acompanhar a solução e avaliar o resultado pode permanecer junto de quem vai viver com as consequências? Essa parte merece ser desenhada desde o início.

Num programa de apoio a negócios, por exemplo, ensinar a preparar uma pergunta útil a um fornecedor pode valer tanto como conseguir uma reunião com ele. A reunião resolve uma ocasião. A capacidade de descrever a necessidade, comparar propostas e reconhecer limites melhora as ocasiões seguintes. Uma coisa não substitui a outra; a primeira deve alimentar a segunda.

Também importa que a aprendizagem não fique concentrada numa pessoa local. Quando todo o conhecimento passa por um único dirigente ou técnico, a continuidade pode depender da sua disponibilidade. A organização precisa de documentos utilizáveis, responsabilidades distribuídas e espaço para que outras pessoas pratiquem. Não se constrói autonomia substituindo um ponto único de dependência por outro.

A pequena empresa não precisa de ser transformada noutra coisa

Há uma forma impaciente de falar de desenvolvimento que parece pedir a todos os negócios que se tornem grandes, digitais e exportadores ao mesmo tempo. Essa ambição pode fazer sentido para alguns. Para outros, a melhoria relevante é conseguir cumprir um horário, estabilizar uma operação, formar alguém ou deixar de depender de uma única pessoa para abrir a porta.

O desenho territorial precisa de reconhecer essa diversidade. Uma oficina, uma loja, um projeto tecnológico e um serviço de proximidade podem contribuir de modos distintos. Avaliá-los apenas por uma medida de crescimento pode tornar invisível o trabalho que mantém o lugar funcional. Isso não significa dispensar exigência. Significa escolher uma exigência relacionada com a função e a fase de cada atividade.

A cooperação também não deve ser apresentada como uma obrigação moral vaga. Empresas pequenas podem ter boas razões para recear compromissos que não controlam. É preciso combinar quem responde, o que cada parte entrega, como se resolve uma falha e quando a relação é revista. A confiança territorial não nasce por se anunciar que todos pertencem à mesma comunidade.

E se a oportunidade for mesmo decisiva?

A objeção é legítima: há lugares que não podem esperar por uma capacidade perfeita antes de receber um investimento importante. Concordo. A alternativa não é recusar a oportunidade até que tudo esteja preparado. É usar a própria chegada para desenvolver condições que reduzam a dependência futura, sem fazer promessas que os participantes ainda não podem cumprir.

Pode começar-se com um âmbito pequeno, uma necessidade concreta e um modo claro de acompanhar o trabalho. A escala inicial não precisa de provar toda a estratégia. Precisa de permitir aprendizagem verificável. O que resultou? O que falhou? Quem consegue repetir? Que recurso ainda tem de vir de fora? A expansão deve conversar com estas respostas.

Também não considero que qualquer dependência seja um erro. Relações económicas criam interdependência. O problema é a falta de alternativas, de informação e de possibilidade de adaptação. Uma empresa pode trabalhar sobretudo para um cliente e estar consciente desse risco. Um território não deve tratar essa concentração como se fosse, por si só, uma garantia de futuro.

Uma pergunta para depois da fotografia

Gosto de deslocar a avaliação para um momento menos vistoso. Depois da sessão, da assinatura e da fotografia, quem sabe fazer o quê que antes não sabia? Que relação útil ficou estabelecida? Que decisão pode agora ser tomada com melhor informação? O que deixou de depender de uma intervenção extraordinária?

As respostas podem ser modestas e importantes. Um grupo de negócios passa a apresentar uma proposta conjunta com responsabilidades claras. Uma equipa local aprende a acompanhar um contrato. Uma pessoa ganha condições para substituir outra sem interromper o serviço. Nada disto dispensa investimento ou liderança. Dá-lhes uma base que pode sobreviver à passagem do entusiasmo inicial.

É nessa direção que entendo a Inteligência Resolutiva aplicada ao território: compreender o problema, organizar capacidades e deixar as pessoas em melhores condições para agir. Não preciso de prometer um salvador para defender uma ambição grande. Um lugar ganha força quando as oportunidades que recebe aumentam a sua capacidade de criar as oportunidades seguintes.

O que merece ser acompanhado

Uma avaliação inicial pode seguir uma necessidade do princípio ao fim. Como foi identificada? Quem conseguiu compreendê-la? Que participantes se propuseram responder? O que precisaram de aprender? Qual deles consegue voltar a fazer o mesmo trabalho sem convocar toda a estrutura de apoio? Estas perguntas permitem observar capacidade concreta, sem reduzir o território a uma contagem de atividades.

É útil ouvir também quem não participou. Pode haver uma barreira de horário, linguagem, confiança ou acesso à informação que a lista de presenças não mostra. Nem toda a ausência é desinteresse. Nem todo o interesse se transforma numa participação viável. Ao tornar estas diferenças visíveis, o programa pode ajustar a forma de chegar às pessoas sem prometer que a mesma solução serve todos os negócios.

A continuidade exige, finalmente, um responsável e recursos compatíveis. Um instrumento útil que deixa de ter acompanhamento pode tornar-se mais uma promessa interrompida. A autonomia precisa de sustentação enquanto está a ser construída.

Lucas Atanazio é empresário brasileiro residente em Portugal, fundador da ATNZO e autor de «O Maestro — A Arte da Negociação».