Uma data pode ser muito útil numa reunião. Obriga a deixar de falar apenas de intenções e põe as pessoas perante um compromisso. Mas também pode produzir uma ilusão: a de que escolher o dia da abertura resolve o trabalho necessário para chegar até lá. Quando a data começa a substituir a explicação, o projeto ganha um calendário e perde a possibilidade de discutir honestamente as suas condições.
Penso no desenvolvimento territorial a partir de uma pergunta muito prática: o que vai conseguir fazer a pessoa que entra neste projeto? Aprender uma competência, testar uma atividade, encontrar um mercado, preparar uma entrega? No desenho do CAE que defendo, academia, incubação, mercado e logística precisam de conversar entre si. Aqui discuto esse modelo proposto. Não anuncio uma instalação, uma parceria municipal, uma reunião realizada ou um prazo contratado em qualquer concelho.
O caminho de uma pessoa revela o trabalho em falta
Imaginemos uma participante que chega com uma ideia e pouca experiência para a concretizar. Uma formação pode ajudá-la a esclarecer uma parte do problema. Depois surgem perguntas sobre a aplicação, a relação com possíveis clientes e a capacidade de entregar. Se cada uma dessas etapas a envia para uma porta diferente sem acompanhamento, o projeto pode oferecer vários serviços e continuar a deixar a pessoa sozinha precisamente na passagem entre eles.
É por isso que o tempo de implantação não deve ser explicado apenas pelo edifício. Uma sala pode estar pronta antes de existir quem a utilize de forma útil. Um programa pode estar escrito antes de a equipa saber como acompanhar uma dificuldade real. Um contacto pode constar de uma apresentação sem que exista disponibilidade confirmada para participar. Misturar estes estados faz parecer que a operação está mais perto do início do que a evidência permite afirmar.
O contrário também acontece. Há trabalho que pode começar sem esperar pela versão completa de todas as instalações. Conhecer necessidades, conversar com potenciais utilizadores e testar uma atividade delimitada pode ajudar a corrigir o desenho. Isso não autoriza a apresentar uma experiência limitada como o projeto integral em funcionamento. Permite aprender com alguma coisa concreta enquanto as outras condições são preparadas. A honestidade da descrição protege tanto a ambição como quem aceita participar.
Um prazo deve ter condições de entrada e de saída
Se alguém diz que uma fase precisa de mais tempo, eu gostaria de perceber para quê. A resposta será diferente se faltar uma decisão técnica, uma capacidade da equipa, uma condição de utilização ou procura suficiente para testar o serviço. Dizer apenas que tudo é complexo não ajuda a resolver. Dizer que tudo estará pronto depressa também não. Entre essas frases existe a possibilidade de apresentar uma dependência concreta e o trabalho necessário para a remover.
Um marco faz sentido quando altera a capacidade de agir. Ter um documento preparado é diferente de ter uma condição confirmada por quem a pode confirmar. Ter um grupo interessado é diferente de conhecer o compromisso possível desse grupo. Ter uma atividade anunciada é diferente de a conseguir realizar com os recursos disponíveis. Esta distinção não serve para desvalorizar o trabalho preparatório. Serve para que o passo seguinte não seja construído sobre uma conclusão que ainda não aconteceu.
Numa proposta territorial, também é importante dizer quem pode decidir cada matéria. Um coordenador não deve prometer em nome de uma instituição uma condição que essa instituição ainda não confirmou. Uma equipa técnica não deve receber como facto consumado aquilo que continua em negociação. Quando o projeto circula entre várias organizações, a clareza sobre essas fronteiras evita que uma frase de entusiasmo numa reunião se transforme numa obrigação presumida na reunião seguinte.
A participação não cabe apenas no dia da apresentação
As pessoas podem ter emprego, família, deslocações e outros compromissos. Um horário aparentemente razoável para a equipa pode ser impraticável para quem se pretende alcançar. Não precisamos de inventar uma taxa de participação para perceber a pergunta: as condições de acesso foram verificadas com as pessoas ou foram decididas apenas por quem desenhou o programa? A diferença aparece quando começa a atividade e as cadeiras vazias contradizem a procura anunciada.
Essa escuta precisa de conduzir a escolhas. Se todas as sugestões forem recebidas como promessas, a participação cria uma lista impossível de cumprir. Se nenhuma alterar o desenho, torna-se uma cerimónia. O trabalho responsável está em explicar o que foi incorporado, o que ficou para outra fase e o que não cabe na proposta. É possível respeitar uma necessidade sem fingir que se dispõe imediatamente da capacidade para a resolver.
Há ainda o tempo de quem trabalha no projeto. Formação, acompanhamento, organização de sessões e resposta a imprevistos disputam horas das mesmas pessoas. Acrescentar uma atividade ao calendário sem retirar ou reforçar alguma coisa pode transferir a demora para uma equipa já ocupada. Um plano que depende permanentemente de esforço extraordinário precisa de ser revisto. A dedicação merece respeito; não deve ser usada como recurso inesgotável para fechar contas que não foram feitas.
Adiar pode ser uma decisão responsável, mas precisa de explicação
Nenhum projeto ganha credibilidade apenas por adiar. A credibilidade depende de mostrar o que se aprendeu, o que mudou e como isso afeta o próximo compromisso. Se uma condição essencial não está reunida, insistir na data para preservar uma fotografia pode prejudicar a experiência inicial de quem confiou na proposta. Se a condição pode ser tratada sem impedir uma atividade segura e útil, talvez faça sentido começar por uma fase mais delimitada e descrevê-la como tal.
O critério deve ser a utilidade entregue e a capacidade de a sustentar. Isto preserva o plano completo sem exigir que todos os seus componentes apareçam ao mesmo tempo. Uma fase inicial tem de conhecer o seu lugar no conjunto, as dependências que deixa em aberto e a forma de aprender com a experiência. Caso contrário, o projeto vai acumulando iniciativas dispersas e chama integração ao facto de todas utilizarem o mesmo nome.
Ao avaliar um calendário territorial, eu pediria que alguém me mostrasse o percurso de um utilizador e os compromissos necessários para esse percurso funcionar. Quem o recebe? Quem acompanha a passagem seguinte? O que acontece se alguma parte falhar? Quando estas perguntas têm respostas verificáveis, a data ganha conteúdo. Antes disso, o melhor serviço que podemos prestar ao território é não confundir o anúncio de uma intenção com a capacidade de a cumprir.