Economia 2040
Opinião assinada

Um centro de empreendedorismo precisa de uma segunda visita

Lucas Atanazio · 20 de outubro de 2026
Tese, análise e decisão
Esquema conceptual da análise, sem dados medidos.

Imagine um jovem que entra num centro de empreendedorismo com vontade de abrir um serviço na sua terra. Sai bem recebido, com contactos e uma fotografia de grupo. Um mês depois continua sem saber com quem testar a ideia. A cena é hipotética. O ponto que me interessa é este: uma boa primeira visita pode esconder a ausência de um percurso para regressar.

Quando penso no papel destas estruturas num território, começo pela segunda visita. O que mudou entre uma conversa e a seguinte? Apareceu um potencial cliente? Foi esclarecida uma necessidade de formação? Alguém percebeu que a ideia precisa de outra escala? A continuidade não exige prometer o sucesso de cada projeto. Exige que a primeira conversa produza um próximo passo que tenha utilidade e responsável.

O primeiro trabalho é conhecer a procura com alguma precisão. Dizer que faltam oportunidades para os jovens é uma preocupação legítima, mas ainda não descreve trabalho. Que serviços as empresas procuram fora? Que competências não conseguem contratar? Que problemas se repetem nas associações e nas instituições locais? As respostas não dispensam investigação. Servem para orientar entrevistas e experiências pequenas, com pessoas identificadas e problemas compreensíveis.

Um exemplo hipotético ajuda. Três produtores podem precisar de melhorar a preparação das encomendas, mas cada um descreve a dificuldade de maneira diferente. Um centro poderia reunir essas necessidades, verificar o que é comum e ajudar alguém a testar uma proposta de serviço. Não seria preciso anunciar um novo setor económico. Seria preciso descobrir se existe um problema suficientemente concreto, alguém disposto a resolvê-lo e procura que justifique continuar.

O segundo trabalho é tornar as ligações utilizáveis. Um diretório com muitos nomes pode impressionar e continuar a deixar o empreendedor sozinho. A ligação útil tem contexto: por que razão estas pessoas devem falar, que informação levam e o que pretendem esclarecer. O centro não substitui o relacionamento. Pode preparar o encontro para que ele comece depois das apresentações, já dentro do problema.

Isso exige atenção à distribuição de oportunidades. Se as mesmas pessoas recebem sempre os contactos mais valiosos, a estrutura arrisca tornar-se uma sala reservada com porta pública. Critérios compreensíveis de acesso, seleção e acompanhamento ajudam a perceber quem está a ser servido. Também permitem discutir uma recusa sem transformar cada decisão numa suspeita sobre amizades. Transparência é trabalho quotidiano, não apenas um documento disponível na entrada.

O terceiro trabalho é aceitar que ficar no território pode não ser a escolha de toda a gente. Um centro não deve tratar a saída de uma pessoa como uma derrota moral. Pode haver projetos que precisam de outro mercado, formação que se encontra fora ou uma opção pessoal que merece respeito. A relação pode continuar através de clientes, conhecimento e colaboração. Reter talento não pode significar pedir imobilidade em troca de pertença.

Eu olharia para o acompanhamento com indicadores modestos e verificáveis: quantas necessidades foram investigadas, quantas experiências chegaram a um resultado, quantas ligações produziram uma conversa substantiva e quantos projetos perceberam, a tempo, que deviam mudar. Contar presenças é útil para organizar uma atividade. É insuficiente para compreender o que essa atividade permitiu fazer depois. Os dois números podem conviver, desde que não sejam confundidos.

A pergunta final seria feita à pessoa que entrou pela primeira vez: sabe qual é o próximo passo e com quem pode contar para o cumprir? Se a resposta for clara, há uma relação de trabalho a começar. Se for apenas um agradecimento simpático, talvez tenhamos recebido bem e acompanhado pouco. O território precisa das duas coisas. A segunda visita ajuda-nos a descobrir qual delas está a faltar.

Um centro pode ainda ajudar a pessoa a rever os seus próprios critérios. Se a procura imaginada não aparece, o que se aprende antes de investir mais? Se um parceiro não tem capacidade, quem mais conhece aquela necessidade? A pergunta não deve servir para manter vivo qualquer projeto. Deve tornar a escolha de continuar, adaptar ou parar mais informada.

Lucas Atanazio, empresário e fundador da ATNZO.