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Opinião

Portugal precisa de empresas que consigam sobreviver ao fundador

Lucas Atanazio Vetorasso · 29 de setembro de 2026

Uma dependência que o movimento diário esconde

Uma empresa pode ter clientes, instalações, faturação e uma equipa dedicada e, ainda assim, depender excessivamente de uma única pessoa. Basta imaginar uma decisão aparentemente pequena: conceder um desconto, resolver uma reclamação ou substituir um fornecedor. Se todas essas situações acabam no telefone do fundador, o negócio tem uma fragilidade que o movimento diário pode esconder. A pergunta sobre continuidade começa aqui: quem consegue decidir, com que informação e dentro de que limites, quando essa pessoa não está disponível?

Defendo que esta pergunta deve fazer parte da agenda das PME portuguesas antes de uma venda, de uma mudança de geração ou de uma ausência inesperada. Esperar pela ocasião em que o fundador precisa de sair deixa a empresa com menos espaço para aprender. A preparação deve acontecer enquanto existe tempo para observar decisões, corrigir critérios e desenvolver pessoas. A experiência de quem criou o negócio continua a ser valiosa; o trabalho de gestão consiste em torná-la transmissível.

A transmissão de uma empresa é, em geral, entendida como uma forma de preservar a continuidade do negócio, o emprego e o conhecimento acumulado, e é por isso que o tema justifica atenção. A proposta que segue, porém, incide sobre o trabalho quotidiano dentro da empresa, e não sobre o enquadramento externo.

Começar pelas decisões que ficam à espera

O primeiro exercício que proponho é simples: durante um período de trabalho normal, registar as decisões que esperam pelo fundador. O registo deve incluir o assunto, a informação em falta, quem poderia decidir e o efeito da espera. Convém distinguir uma negociação excecional de uma autorização que se repete todas as semanas. Essa diferença permite concentrar o esforço onde a dependência pode ser reduzida sem pôr a operação em risco.

Pensemos num exemplo hipotético de uma pequena rede de lojas. O responsável de uma unidade pede autorização para compensar um cliente por um serviço mal executado. O fundador conhece o histórico e decide depressa. A melhoria consiste em explicitar os critérios usados: gravidade da falha, compromisso assumido, custo da solução e situações que exigem uma segunda avaliação. O responsável passa então a dispor de uma margem de decisão e sabe quando deve pedir apoio. A empresa ganha uma regra utilizável, em vez de apenas mais uma resposta numa conversa privada.

Transferir critério e responsabilidade

Documentar ajuda quando o documento acompanha o trabalho real. Um procedimento deve explicar quem decide, qual o resultado esperado, que informação é necessária e como se reconhece um desvio. Deve também indicar quem o revê. Um manual sem responsável pela atualização pode tornar-se uma descrição de como a empresa funcionava, enquanto a equipa continua a resolver os problemas por outras vias.

A transferência de conhecimento exige demonstração. Quem recebe uma responsabilidade precisa de observar uma decisão, explicar o raciocínio que compreendeu e experimentar em condições delimitadas. Depois, fundador e responsável devem comparar o resultado com o critério combinado. Esse momento de revisão vale mais do que uma declaração vaga de autonomia. Permite descobrir se faltou informação, se o limite estava mal definido ou se a pessoa precisa de desenvolver uma competência específica.

Para uma PME, proponho começar por uma área concreta, com risco controlável. Pode ser a resolução de reclamações correntes, a preparação de propostas comerciais dentro de condições definidas ou a organização de uma escala de trabalho. O objetivo inicial é demonstrar que alguém consegue assumir uma responsabilidade completa. Só depois faz sentido alargar o âmbito. A autonomia ganha consistência quando o resultado pode ser observado e discutido.

A liderança também precisa de mudar de hábito

Há uma dimensão humana neste processo. Para quem fundou uma empresa, intervir pode ser uma forma de proteger aquilo que construiu. Aceitar uma solução diferente da sua exige tolerar algum desconforto. A equipa, por sua vez, precisa de saber que uma decisão tomada dentro dos limites acordados será avaliada pelos seus fundamentos e resultados. Se a resposta habitual a qualquer diferença for retirar a responsabilidade, pedir autorização volta a ser a opção mais segura para todos.

Por isso, considero essencial combinar antecipadamente como será tratado o erro. Há que separar incumprimento de um limite claro, falta de preparação e uma hipótese razoável que não produziu o resultado esperado. Cada situação exige uma resposta diferente. Esta distinção cria espaço para aprender sem transformar autonomia em ausência de controlo. Também obriga o fundador a exercer liderança através de critérios que outras pessoas conseguem compreender.

O conflito merece o mesmo cuidado. Quando duas áreas discordam, deve existir uma forma de apresentar o problema, ouvir as consequências e chegar a uma decisão com responsável e prazo. Uma reunião termina melhor quando fica claro o que será feito e quando o resultado voltará à mesa. A proximidade pessoal com o fundador não deveria ser o mecanismo de desempate de uma questão operacional.

Testar a continuidade em condições reais

Uma empresa pode avaliar a sua preparação através de ausências planeadas e graduais do fundador em determinadas rotinas. Proponho começar por uma reunião, um processo ou um conjunto de decisões delimitadas. Devem manter-se os apoios necessários para situações excecionais. O propósito é observar como a equipa trabalha e onde encontra dificuldades, preservando a qualidade do serviço e os compromissos assumidos.

O balanço desse exercício deve produzir medidas concretas. Que decisões ficaram paradas? Que informação estava apenas numa conversa pessoal? Que compromisso com um cliente não tinha registo acessível? Que autorização estava atribuída à pessoa errada? Cada resposta deve resultar numa correção, com responsável e data de revisão. Repetir o exercício permite perceber se a dependência diminuiu ou apenas mudou de lugar.

A tecnologia pode ajudar a tornar a informação acessível, desde que acompanhe responsabilidades claras. Um CRM pode guardar o histórico de um cliente; uma base de conhecimento pode apoiar a formação; uma ferramenta de IA pode organizar documentos e sugerir perguntas. A decisão sobre quem valida a informação, quem responde pelo serviço e quem pode assumir um compromisso continua a precisar de definição. Para esta análise, a utilidade de uma ferramenta deve ser julgada pela melhoria observável de uma tarefa.

Fazer da continuidade uma responsabilidade presente

Em Portugal, proponho que empresários, equipas de gestão e associações empresariais tratem esta preparação como parte regular da gestão. Uma discussão útil pode começar com um processo, uma pessoa a desenvolver e uma dependência a reduzir. Não exige anunciar uma sucessão nem fixar uma data de saída. Exige aceitar que a capacidade de continuar deve ser construída enquanto o fundador ainda pode contribuir ativamente para ela.

Criar uma empresa e prepará-la para continuar são responsabilidades que se encontram. O fundador pode preservar a ambição, a exigência e o sentido do negócio ao ensinar outras pessoas a decidir bem. Esse trabalho deixa uma prova concreta de liderança: clientes atendidos com consistência, responsabilidades assumidas e problemas resolvidos sem que tudo tenha de regressar ao mesmo telefone.

Fica uma pergunta para quem dirige uma PME: se amanhã não pudesse atender o telefone, que decisões da sua empresa ficariam à espera?

Lucas Atanazio Vetorasso é empresário, escritor e fundador da ATNZO. Coluna de opinião; as posições são do autor.